Cultura, Póvoa de Varzim

Poetas “à conversa” no Theatro da Póvoa de Varzim

Este ano, o Correntes d’Escritas também passou por um novo espaço dedicado aos sabores e à cultura na Póvoa de Varzim, o Theatro – Restaurante, wine bar, livraria e galeria de artes.

Aqui se reuniram Emerenciano, José-Alberto Marques e Fernando Aguiar para uma sessão de Correntes à conversa em torno do tema “É arte do poeta arquiteturar palavras”.

O artista plástico português Emerenciano falou do seu percurso, referindo que com a “aproximação à escrita através das letras, realizei o que chamei Escripinturas, que eram manifestos dizíveis sem palavras. As Escripinturas eram pinturas, eram também o modo dearquiteturar a ausência das palavras desejadas configurando uma escrita de absurdo”.

A partir de 1973 define por aproximação à escrita a sua pintura, título da primeira exposição individual que realiza no Porto em 1979.

Revelou ainda que “convencia-me de que não poderia ser simplesmente um pintor mas um pintor desafiado a entrar atrevidamente no terreno do escritor por causa da vida e nela aproximavam-se, conflituando a estética, o silêncio, a traição e a revolta”.

A escrita é figurada e assumida por meio de desenvolvimentos complementares, justificando mais tarde textos de reflexão e poesia. Em 1980 inicia a participação regular em exposições internacionais de Arte Postal e de Poesia Visual.

Para Emerenciano, “a representação visual da escrita recusando as palavras, em resumo, é a figuração dessa escrita num símbolo e enquanto símbolo desafia-me a imaginação simbólica, leva-me para novos desenvolvimentos do desenho, da pintura e porque não dizer da poesia visual”.

José-Alberto Marques transmitiu que “a poesia é um corpo”, acrescentando que “arquiteturarum sistema de palavras é o fenómeno da relação entre o pensamento e a realização de um facto”.

Para o pioneiro da poesia concreta em Portugal, “a poesia é a criação da escada entre o silêncio frágil e a dureza segura vista do alto”, considerando-se “um solitário no meio das palavras que escrevo”.

José-Alberto Marques partilhou com o público aquele que foi o primeiro poema concreto publicado em português e em Portugal do livro I’man e revelou que “a poesia concreta passou a ser por mim e para mim alguma coisa que eu mais amava: fazer o que não há. Daí, fui construindo poemas e poemas e fui publicando, inclusivamente, em jornais de província até que cheguei à publicação de fazer mais textos no género. Parecia que o destino estava marcado”.

O poeta revelou que “toda a minha vida foi, exatamente, jogar nesta onda, arquiteturar, fazer poemas com arquitetura”, acrescentando que “sou uma pessoa que ama aquilo que desconhece. Cada vez que mais me desconheço, cada vez vou fazendo aquilo que mais gosto”.

Para Fernando Aguiar, “a poesia experimental é uma poesia que se distingue ou diferencia da poesia verbal (procura valorizar sobretudo o conteúdo do poema). O poeta experimental procura valorizar a forma, a estética do poema e preocupámo-nos com a sonoridade das palavras, rimas internas, etc”.

Leu alguns dos seus poemas ilustrativos da poesia experimental, referindo que “outro dos aspetos que valorizamos é a ironia e o absurdo”.

Fernando Aguiar transmitiu que “muita gente, quase toda a gente acha que a poesia experimental é uma brincadeira com palavras”. No entanto, assumiu que “eu não considero uma brincadeira de palavras. Dá muito trabalho a fazer, a construir. Considero que a poesia não deve ser uma coisa maçuda, como tal procuro que os poemas tenham algo para sair da poesia mais lírica e pesada”.

Veja a fotogaleria.

Acompanhe o 19º Correntes d’Escritas no portal municipal e no facebook Correntes, onde pode consultar o programa completo do evento e ficar a par de todas as novidades.

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