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Secundária Rocha Peixoto na Póvoa de Varzim engalanou-se para receber o Correntes

Secundária Rocha Peixoto engalanou-se para receber o Correntes

Germano Almeida, João Tordo e Marina Perezagua encontraram-se, esta manhã, com os alunos da Escola Secundária Rocha Peixoto, no âmbito da 18ª edição do Correntes d´Escritas.

Entusiasmados pela presença destes três vultos da literatura, os jovens estudantes prepararam um espetáculo de arromba para os receber, com direito a música, piano e dança. De seguida, procederem a uma breve apresentação dos seus convidados e não se pouparam nas questões, acrescentando riqueza cultural a esta sessão de perguntas e respostas.

Marina Perezagua, que se mostrou “impressionada pela calorosa receção de boas vindas”, começou por pedir desculpa aos jovens estudantes por não se conseguir expressar em português fluente.

De seguida, a autora espanhola abordou o processo criativo de um escritor, algo “muito solitário”, referindo-se a si mesma como uma pessoa “igualmente solitária”, que sempre praticou “desportos centrados na solidão física, como a natação de longa distância, onde aproveito para pensar na minha escrita”. Questionada sobre a sua preferência entre natação e a escrita, a escritora respondeu que prefere estar em água que em terra, pelo que seria muito complicado viver sem a natação.

A autora sevilhana foi questionada sobre a terra que mais a marcou, Nova Iorque, por ser uma “cidade com muito contraste, por um lado com graves problemas de racismo, à imagem de todos os Estados Unidos, mas por outro uma cidade com imensa solidariedade.”

Relativamente à relevância dos prémios literários, Marina Perezagua considera que têm uma “importância afetiva”, mas que não lhes dá excessivo peso, pois o que move um escritor á o seu perfecionismo, apesar de este ter sempre presente a noção de que “a obra nunca vai ser perfeita”.

João Tordo falou da solidão do escritor e de como a escrita o influencia a viver sozinho: “a escrita é um espaço de solidão por natureza, o que pode ser uma coisa boa. Torna-se num espaço em que estás com a pessoa que mais precisas, tu mesmo, o que é importante para a transposição emocional do quotidiano na ficção e de certa forma para perceberes quem és.”

Desafiado a responder se a escrita era um ofício herdado por via familiar, o autor discordou, explicando que a “escrita surgiu-me quando era miúdo. Fui compreendendo o ofício, ia escrevendo e mandando fora, escrevendo e mandando fora, isto até aos 28 anos quando publiquei pela primeira vez.” O autor comparou o seu começo nesta profissão com o que se verifica atualmente, confessando que “seria muito mais difícil enveredar por esta vida crescendo nos dias de hoje, porque se procura a recompensa imediata e a escrita é o oposto, sem qualquer tipo de «likes no facebook», sem gratificação imediata.”

Relativamente à experiência de vida que mais marcou a sua obra, João Tordo revelou que é “um de 3 gémeos”: “tenho uma gémea falsa e tive um gémeo idêntico, que por sabedoria dos deuses, morreu com 6 ou 7 horas de vida. Sem me aperceber, de uma forma subconsciente, isso foi-me marcando, tendo acabado por escrever um livro sobre isso, Ano Sabático. Foi essa falta de qualquer coisa que me impulsionou. A escrita ocupa esses vazios”, concluiu o escritor lisboeta.

Germano Almeida, que agradeceu a “magnifica apresentação que nos foi feita pelos alunos da escola”, revelou que aprendeu “na Cerimónia de Abertura do Correntes d´Escritas que todos os escritores são narcisistas. Confesso que também eu sou um pouco narcisista.”

O escritor cabo-verdiano considera-se um “contador de histórias e não um escritor”. “Quando cresci em Cabo Verde, não havia eletricidade, pelo que a nossa luz era a Lua. Então pagávamos aos contadores de histórias para nos narrarem contos, noite dentro. Quando escrevo tenho sempre presentes esses homens e por isso a minha escrita é mais coloquial, porque quando falamos não nos preocupamos com escrita literária, mas sim em produzir histórias verosímeis ”

“Nós escritores fabulamos a realidade. Mais que imaginação, este é um trabalho de observação, da vida, do que nos rodeia, das pessoas com quem convivemos e que nos passam as suas experiências”, concluiu Germano Almeida.

Veja a fotogaleria.

O encontro dos escritores com os jovens alunos dos diferentes níveis de ensino é um dos pilares do Correntes d´Escritas. Desde o Ensino Básico ao Superior, a 18ª edição do evento continuará a promover diversas sessões de autores com os alunos, entre o dia de hoje e sexta-feira.

Acompanhe o 18º Correntes d’Escritas no portal municipal e no facebook Correntes, onde pode consultar o programa completo do evento e ficar a par de todas as novidades.

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