Cultura, Póvoa de Varzim

O poder da palavra em debate na primeira Mesa do Correntes na Póvoa de Varzim

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Eugénio Lisboa, Hélia Correia, Mário Cláudio, Valter Hugo Mãe e Ignácio de Loyola Brandão foram os protagonistas da Mesa inaugural do 18º Correntes d’Escritas, moderada por José Carlos de Vasconcelos, ontem, no Cine-Teatro Garrett.

Um verso da obra vencedora do Prémio Casino da Póvoa – A Sombra do Mar – de Armando Silva Carvalho foi o tema da Mesa: “e as insistentes palavras parecem desistir enquanto avançam”.

Para Eugénio Lisboa, neste verso “alude-se áquilo que é fundamental no texto poético e mais ainda de uma maneira geral no texto literário: o poder da palavra como elemento nuclear constituinte desse mesmo texto poético ou literário. Mas não é a palavra usada no seu modo corrente.”

Para este autor, no “texto poético, as palavras são usadas de um modo muito especial de modo a permitirem ao poeta fazer uma exploração eficaz dos seus próprios assombros”.

Eugénio Lisboa transmitiu que “no texto literário ou no texto poético interessa não só o significado da palavra mas também o seu som, o seu peso, o seu sabor. O poema faz-se com palavras usadas mas com toda a sua carga significante e sonora”, acrescentando que “os poemas não se fazem só com palavras, fazem-se também com ideias. Simplesmente, as ideias só por si não fazem o poema”.

O homenageado da Revista Correntes d’Escritas considera que “a palavra é o constituinte essencial do texto poético e detém um poder muito especial”, chamando a atenção para o verso de Armando Silva Carvalho que refere que “as palavras são insistentes e não desistem, apenas parecem desistir. E, no entanto, avançam”.

O autor terminou fazendo um paralelo com a prosa e afirmou que “na prosa de pura comunicação, as palavras perdem aquele peso e sabor especial que têm na poesia ou na prosa literária. «A poesia está para a prosa como o danças está para o andar.» (Jonh Wayne). Na poesia, as palavras são diferentes, soam diferente e funcionam de maneira diferente”.

Para Hélia Correia, “a palavra é o único ser vivo que não é natural” e na tentativa de interpretar o verso de Armando Silva Carvalho referiu que “teria que pegar no poema inteiro”. E tentando encontrar-lhe um sentido “seria nostálgico, ligado a alguma perda de força da palavra”. Não sendo este o caminho, prefere a ideia de que “as palavras persistem, recuam quando insistem em avançar. É preciso que as palavras recuem até à Grécia e olhemos para elas com a espessura, intensidade, peso e força quase tirânica que tinham na cultura grega e, a partir daí, com elas abraçadas, avançássemos por um outro caminho que não é o de hoje”.

A escritora considera que “cada vez mais a palavra está a ter um uso absolutamente funcional e um tratamento de negligência absoluta. Estamos a perder léxico a uma velocidade maior do que perdemos neurónios. A palavra está reduzida à sua função de instrumento utilitário”, advertindo que é necessário “dar às palavras, de novo a sua dignidade”.

Terminou transmitindo que “não há nada mais nosso do que as palavras e não há nada de poder absoluto sobre nós do que as palavras”.

Mário Cláudio fez a sua abordagem a partir de três elementos do verso de Armando Silva Carvalho: “insistentes”; “desistir” e “avançam” e falou da insistência da palavra, do escritor; da desistência da mesma palavra e, finalmente, do avanço que pode resultar desse jogo de insistência e desistência.

O autor corroborou a ideia de Hélia Correia transmitindo que “cada vez temos menos área lexical”, assumindo-se, entre outros, como um “vigilante do léxico para que ele não morra”.

Terminou referindo-se à questão do envelhecimento, nomeadamente, “como se escreve quando se está a envelhecer?”, transmitindo que “gostava que a minha velhice fosse uma ilustração da convivência com a palavra, com o verbo e com tudo aquilo que na palavra se contem. Espero que isso venha a acontecer”.

Valter Hugo Mãe partilhou com o público um “texto literário e muito íntimo” em que fez alusão às suas avós, paterna e materna, e respetiva relação com a palavra. Tudo, tendo como cenário a Póvoa de Varzim e o escritor era uma criança.

Sobre a sua avó paterna, referiu “que não conseguia conversar”, acrescentando que “nunca mais encontrei alguém de tão impressionante economia discursiva”. O autor revelou que só mais tarde entendeu que “a expectativa de que ela falasse representava uma esperança de que provasse o afeto. Entendi, mais tarde, que as palavras eram fundamentais para a própria existência do afeto”.

Continuou contando “o meu pai contou-me que a minha avó tinha mandado dizer que eu seria professor porque me preocupava com ouvir as pessoas. Haveria de ter muito para contar. Fiquei estupefacto. A minha avó tinha até imaginado o meu futuro como se garantisse que eu haveria de ter futuro. E o meu pai acrescentou: «Ela diz que tens que ser igual à Póvoa de Varzim, extenso como a praia e forte como o vento»”.

E o autor revelou que “hoje, estou convencido de que o meu pai me mentiu porque, como eu, queria que a sua mãe falasse. Inventava-lhe um discurso, uma conversa. Mas também sei que tantas vezes há falta de interlocutor melhoramos o mundo a conversar de mentira. Para isso servem todos os livros e nenhum livro se faz sem essa rendição à maravilha em detrimento da verdade”.

Valter Hugo Mãe contou que por outro lado, a sua avó materna passava os verões a conversar, “sabia tudo e conhecia até a mais ínfima criatura que habitava nas cidades de Portugal”.

Ignácio de Loyola Brandão, estreante no Correntes d’Escritas, retratou a realidade brasileira para exemplificar que várias palavras perderam sentido no Brasil nos últimos anos.

O escritor transmitiu que “as palavras sentiram que estavam a perder significado. Intensamente usadas, entristecidas e amarguradas, enfraquecidas e humilhadas foram tomadas pela depressão, angústia e melancolia. Foram-se desviando das instituições e dos escritos, sem uso e sem função. Não se pode dar mais a palavra. Já não existe a palavra de honra. Ninguém mais teve a última palavra”.

O autor constatou que restou a palavra vazia e “conversando entre elas, as palavras concluíram que nesse país o significado das coisas mudou por lei. O não é sim, o preto é branco e o mal é o bem. Inocentes são culpados e a mentira é verdade. Era preciso pensar ao contrário para se obter o significado e assim as palavras passaram a resistir”.

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Acompanhe o 18º Correntes d’Escritas no portal municipal e no facebook Correntes, onde pode consultar o programa completo do evento e ficar a par de todas as novidades.

 

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