Cultura, Póvoa de Varzim

A subjetividade do tempo em que se escreve – Póvoa de Varzim

unnamed (8)“Escrevo o futuro ou escrevo para o futuro” foi o tema proposto na Mesa 4 do Correntes d’Escritas na tarde de quinta-feira, no Cine-Teatro Garrett, colocando ao mesmo nível de reflexão Fernando Perdigão, José Manuel Fajardo, J.A.S. Lopito Feijóo K., Matilde Campilho, Tiago Salazar, com a moderação de Henrique Cayatte.

Fernando Perdigão nasceu na Guiné-Bissau, em 1954, e começou por salientar a “carga de subjetividade” da frase proposta como tema. Qualquer texto, assim como as informações que encerra, destina-se tanto ao presente como ao futuro, refere o autor. “O Homem inova de forma duradoura dentro de uma tradição, de uma cultura e aprendizagem, de todo um saber nele acumulados”, refere Fernando Perdigão aludindo a um presente, com carga do passado. Mas os escritos ultrapassam “a dimensão do presente e projetam-se no futuro”, acrescentou.

O escritor guineense considerou, entretanto, que “um projeto que traz pessoas de vários países para debruçarem-se sobre temas curiosos e integrantes, como este, é uma iniciativa bem conseguida que terá o condão de reatar a ideia e a força da escrita retida nas nossas sociedades”.  

José Manuel Fajardo considerou que o tema proposto remete para a abordagem do tempo: “todos temos expetativas de ter um futuro, coisas a fazer, a propor e a partilhar, pelo que o futuro é um jogo de miragem, como se fosse um jogo de espelhos”. Afinal, frisou Fajardo, “vivemos num presente que está constantemente a fugir, a escapar segundo após segundo, o que nos provoca um jogo de incertezas”. O autor afirmou que o “passado não se explica, dá-nos a identidade” com que tentamos construir a perspetiva do futuro, “de viver mais um dia, um mês, de fazer anos…”

Quando escrevemos, de acordo com este autor nascido em Granada, em 1957, o material imediato que usamos é a memória e não olhamos para o único elemento que é real, o presente: “refletimos o passado e perspetivamos o futuro, mas não analisamos o presente, e afinal, o futuro é a antecipação da perda”.

Matilde Campilho, cronista do jornal Público, nascida em Lisboa, em 1982, privilegia o presente, mas considera que, de facto, o escritor tem “muita sorte em poder brincar com estes três tempos – passado, presente e futuro – para fazer o mesmo trabalho dos escultores, a limpeza, e chegar assim à verdade, que é nada mais que o presente que habito”. Para a escritora e cronista, a “verdade é reconhecer o passado para habitar no futuro e poder privilegiar o presente”.

E acrescenta que isto de “escrever o futuro” poderia chamar-se “imaginação”. Mas, frisou, “é ao presente que me agarro diariamente”.

J.A.S. Lopito Feijóo K. é angolano, nascido em Malanje, em 1963. Considerou o tema da mesa um “pouco lunático”, mas como na sua terra as pessoas o costumam caraterizar como lunático, agradeceu o convite e a integração neste debate. J.A.S. Lopito Feijóo K. considera-se “um aprendiz de poeta que gosta de contar histórias”. Assim, e a propósito do tema, recordou que os mais velhos sempre lhe disseram que ele era “um jovem com futuro na Literatura angolana”. O que acontece, afirmou, “é que tenho 18 títulos publicados e continuo a ter futuro. Nós nunca sabemos se o futuro é amanhã, daqui a uma semana, um mês. Quanto é o nosso futuro…”

J.A.S. Lopito Feijóo K. aborda ainda a questão da falta de compreensão dos escritores no seu tempo, alguns só são entendidos no futuro: “temos muitos escritores que nunca foram entendidos e, mesmo aqueles que são entendidos hoje, daqui a 50 anos, os vindouros vão ler as suas obras de outra maneira”. Está claro que “escrever para o futuro é muito complicado quando tudo o que vivemos é o presente. O passado lá vai, quando muito podemos fazer uma visita ao passado, e em razão das nossas experiências, escrever no presente para sermos entendidos no futuro”.

O jovem Tiago Salazar (nascido em 1972, em Lisboa), a exemplo do colega angolano, também veio pela primeira vez ao Correntes d’Escritas. Autor de alguns livros de viagens, preparou um pequeno roteiro de histórias que intercalam com vivências do passado, como a memória de que, em criança, queria ser pianista, e de viagens que relatou em livro, perspetivando o desejo futuro de outras visitas aos mesmos e a outros locais.

O autor referiu que escreve contra a erosão da morte que há no futuro. Para Tiago Salazar, é impossível projetar o futuro sem ter aventura e lança o desafio, como se viajará no futuro? “Será através de foguetão, de zepellin ou teletransporte? …”

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