Castro Verde, Cultura

Capilla Santa Maria protagoniza concerto na Basílica Real de Castro Verde

cartaza3-ftss-2015Nesta 11ª edição, o Terras sem Sombra – Festival de Música Sacra do Baixo Alentejo apresenta em Castro Verde o agrupamento Capilla Santa María, para um concerto subordinado à temática “Misticismo: Música Espiritual Hispano-Portuguesa do Renascimento Central e Tardio”, sob a direção do maestro Carlos Mena, que se realiza a 23 de maio, na Basílica Real de Nossa Senhora da Conceição, a partir das 21h30.

Um encontro com as raízes mais profundas da espiritualidade musical do “Século de Ouro” espanhol que, segundo Juan Ángel Vela del Campo, diretor artístico do festival de música sacra do Baixo Alentejo, realça os valores do misticismo e da intimidade, em formato camerístico, sustentado pela voz impar do contratenor Carlos Mena, acompanhado à vihuela por Juan Carlos Rivera e ao órgão por Carlos García-Bernalt.

A valorização dos recursos naturais constitui outra das prioridades do Festival, associando-se a uma ação de voluntariado para a salvaguarda da biodiversidade, que conta a participação dos artistas, do público e das comunidades que a iniciativa percorre.

Neste âmbito, está agendada para domingo, 24 de maio, a partir das 10h00, a atividade de biodiversidade “De Olho nas Águias”, que terá como cenário a Ermida de Nossa Senhora de Aracelis.

O Festival Terras Sem Sombra é uma organização do Departamento do Património Histórico da Diocese de Beja e conta com a colaboração da Câmara Municipal de Castro Verde, Paróquia de Castro Verde, Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (Parque Natural do Vale do Guadiana) e da Liga para a Proteção da Natureza.

Misticismo e intimidade pela voz de Carlos Mena, grande mestre da música ibérica

A Basílica Real de Nossa Senhora da Conceição, matriz de Castro Verde, será iluminada pela evocação de uma etapa deveras singular da História da Música na Península Ibérica. Sob o título Íntimo Misticismo: Música Espiritual Hispano-Portuguesa do Renascimento Central e Tardio, este concerto proporcionará o ensejo para conhecer (ou revisitar) obras desse período, numa escolha muito cuidada – e muito eloquente –, da responsabilidade Carlos Mena, que espelha «o pluralismo quinhentista e a criatividade expressiva do “Século de Ouro”», como explica Bárbara Villalobos, autora da nota de programa.

Domingo, pela fresca, na colina de Aracelis, que domina as vastas planícies do Campo Branco,  decorrerá nova ação em prol da biodiversidade, agora consagrada à ave de rapina mais ameaçada da Europa: a águia imperial ibérica. Estas atividades fazem parte da agenda da 11.ª edição do Festival Terras sem Sombra, um projeto do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, em parceria com as autarquias e as «forças» vivas da região, e são de entrada gratuita. Trata-se de uma oportunidade única para descobrir os tesouros culturais e naturais da região.

Assumindo a presença no ambiente mágico da Basílica Real de Castro Verde, o mais sumptuoso monumento da Diocese de Beja, como uma homenagem a notáveis compositores espanhóis, portugueses e franceses (entre os quais ressaltam famosos mestres da Escola de Évora), o ensemble Capilla de Santa María, sob a direção de Carlos Mena, irá revisitar algumas realizações cimeiras da sua música. O intérprete confessa, ele próprio, não saber o que vai acontecer: «Se quisesse planear integralmente este concerto, ele perderia a espontaneidade que oferece a nossa arte, que nasce e morre no momento». E acrescenta: «O repertório abrange obras que tentam, tanto na essência como na disposição instrumental original, espelhar os mais profundos sentimentos religiosos e espirituais na sua forma mais intima, o que produz um efeito muito acentuado do ponto de vista da intensidade musical».

Nascido em Vitoria-Gasteiz, o contratenor Carlos Mena já atuou nas mais prestigiadas salas internacionais. É fundador e diretor de Lux Orphei e de Capilla Santa María, foco da atividade musical da Fundación Catedral Santa María e referência para a “música histórica”. Com esta formação, tem vindo a interpretar obras da Idade Média, do Barroco e do Renascimento, cativando nos públicos e obtendo as melhores referências da crítica. Exemplo disto foi o espetáculo De lo humano y divino. Anatomía de las pasiones, no Teatro de la Zarzuela de Madrid, sob a direção de Joan Antón Rechi.

No repertório que se vai escutar em Castro Verde «não faltará a emblemática O magnum mysterium, de Victoria; a este “mistério” da música e da vida alude precisamente o título com que se batizou esta edição de Terras Sem Sombra», diz Juan Ángel Vela del Campo, assinalando que o programa conduz a um brilhante diálogo ibérico: os espanhóis Tomás Luis de Victoria e Cristóbal de Morales partilharão as suas obras com as dos portugueses António Carreira, Manuel Rodrigues Coelho ou Fr. Manuel Cardoso. Algo que promete uma experiência inesquecível e difícil de repetir, se considerarmos a peculiar acústica da Basílica Real de Nossa Senhora da Conceição.

 

Biodiversidade – Terras Sem Sombra de olhos postos nas águias

No dia 24 de Maio, a partir das 9h30, a comunidade do festival, incluindo músicos, espectadores e staff, unir-se-á à população local para outra jornada de salvaguarda da biodiversidade. A iniciativa, organizada em articulação com o Parque Natural do Vale do Guadiana, do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, e a Câmara Municipal de Castro Verde, desvenda os resultados do projeto Life Imperial, da Liga para a Proteção da Natureza, que visa a conservação da Águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti).

A ação principia pela aldeia do Salto, na freguesia de São Marcos da Ataboeira, com a amassadura, por todos os participantes, de pão, que será cozido, de acordo com os ditames da tradição, no forno comunitário dessa localidade. Seguidamente, em tratores, visitar-se-á a ermida de Nossa Senhora de Aracelis (Ara Coeli, ou seja, “Altar do Céu”), no cume do outeiro que delimita os concelhos de Castro Verde e Mértola, para observar uma das espécies mais emblemáticas da Península Ibérica: a águia-imperal-ibérica, ave de rapina de grande envergadura, que impressiona pela imponência.

Espécie endémica do Oeste do Mediterrâneo, atualmente restrita à Península Ibérica, onde nidificam apenas cerca de 400 casais (396 em Espanha e 11 em Portugal), esta ave encontra-se em risco de extinção. No nosso país, a maior concentração de casais ocorre em torno do Campo Branco, sendo a elevação de Aracelis um dos locais privilegiados para a sua observação. Como identificá-la, averiguar onde vive, o que come, quais as ameaças que a afetam e quais os esforços que estão a ser desenvolvidos para garantir a sua preservação, eis algumas das questões que irão ser analisadas no terreno.

A ermida de Aracelis é também um ponto-chave para a compreensão do património religioso da zona. Estrategicamente localizado nas rotas da transumância, este santuário mariano está associado a velhos cultos agrícolas e pastoris, sendo ainda hoje alvo de romarias muito concorridas pelos habitantes das freguesias ao seu redor. José António Falcão, diretor do Departamento do Património da Diocese de Beja, aproveitará a oportunidade para falar das “seis irmãs” – seis ermidas – que dali se avistam e para explicar a topografia sagrada de um território vinculado, com D. Afonso Henriques, ao nascimento de Portugal como reino.

De volta à aldeia do Salto, realizar-se-á o petisco com o pão resultante do labor coletivo da manhã, pretexto para uma alargada troca de impressões sobre o Alentejo, como é timbre do Festival Terras sem Sombra. A singela merenda, fio condutor para a evocação da excelência de produtos regionais hoje em voga, será acompanhada por uma oficina de Cante Alentejano. Este justo remate da jornada, com a participação do agrupamento Os Ganhões, de Castro Verde, dará a conhecer a origem, a evolução, as caraterísticas artísticas e o significado social de uma manifestação da identidade regional que foi recentemente classificada, pela UNESCO, como Património Cultural da Humanidade.

 

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