Cultura, Reguengos de Monsaraz

Tiago Salgueiro apresenta o livro “Do Japão para o Alentejo” na vila medieval de Monsaraz

O Município de Reguengos de Monsaraz vai apresentar o livro “Do Japão para o Alentejo – A Embaixada Japonesa Tenshö em Vila Viçosa no ano de 1584”, de Tiago Salgueiro, no dia 29 de dezembro, às 17h, na Igreja da Misericórdia, na vila medieval de Monsaraz. Esta obra editada pela Chiado Editora aborda a temática relacionada com a embaixada japonesa que em 1582 partiu de Nagasáqui em direção a Roma.

 

No decurso dessa viagem o Paço dos Duques de Bragança em Vila Viçosa foi um dos lugares visitados pelos quatro jovens vindos do Japão. Se só por si esta noticia teria tido impacto pelo momento em que ocorreu e por constituir um encontro multicultural no contexto nacional, assume uma outra dimensão tendo em conta as motivações que estiveram na origem deste facto. Convertidos ao cristianismo, os nobres japoneses faziam parte de uma delegação que se dirigia a Roma e que visitou os mais importantes centros de decisão na Europa, no período entre os anos de 1582 e 1586.

 

O grande mentor desta iniciativa foi o visitador jesuíta das Índias Orientais, padre Alessandro Valignano (1539-1606) que organizou a visita a Roma para os príncipes cristãos japoneses convertidos com um duplo objetivo: esclarecer o Papa com os feitos das missões na Ásia e impressionar os nobres japoneses com o poder e o estatuto de Roma e dos grandes senhores europeus.

 

Os nomes dos príncipes eram Ito Sukemasu (Dom Mancio, 12 anos de idade), Chijia Naokazu (D. Miguel, 14 anos de idade), Hara Nakatsukasa (D. Martinho, 13 anos de idade) e Nakaura Jingoro (D. Julião, 12 anos de idade). Estavam acompanhados pelo jesuíta português Diogo de Mesquita (1553-1614), tutor e intérprete, e os servos Agostinho e Constantino. Este périplo pela Europa, África, Índia, Macau e Japão durou oito anos e meio. Quando chegaram a Vila Viçosa, os embaixadores japoneses tinham aproximadamente a mesma idade que D. Teodósio II (entre os 12 e os 14 anos) e os destinos do Ducado de Bragança eram dirigidos por D. Catarina, viúva de D. João I e neta do Rei D. Manuel I.

 

O que se pretende demonstrar com esta pesquisa prende-se com o facto de Vila Viçosa ter sido mais do que uma escala conveniente. De facto, em termos do percurso para Madrid, de Évora, onde a comitiva japonesa foi recebido pelo Arcebispo D. Teotónio de Bragança, teria sido possível ao grupo chegar a Elvas num dia. Contudo, por a delegação ter visitado Vila Viçosa durante quatro dias no caminho para Roma e mais quatro dias no regresso dá-nos a indicação da importância da Casa de Bragança aos olhos da Igreja e do próprio contexto político nacional desse período. A delegação japonesa visitou Vila Viçosa duas vezes, permanecendo por quatro dias em cada ocasião, o que demonstra a importância do ducado.

 

Durante o ducado de D. Teodósio II, e desde os seus antecessores D. Teodósio I e D. João I, Vila Viçosa tornara-se a manifestação ou personificação clara da “Corte na Aldeia”, com o centro nevrálgico instituído na expressão arquitetónica monumental do Paço Ducal, sinal de grandeza e pretexto sempre renovado de concorrência e ultrapassagem à invasora corte castelhana.

 

A Casa de Bragança possuía uma autonomia de governação e lógica própria que se materializava pelo controlo e expansão de recursos tipicamente senhoriais. Dai que ao longo do período filipino, os Bragança mantivessem uma estabilidade política invejável, já que não dependia do arbítrio régio, a que se acrescia a fidelidade das casas senhoriais e dos nobres que a rodeavam ou de grupos de familiares de exclusiva implantação regional e local.

 

Nesse sentido, a visita a Vila Viçosa assumiu contornos bastante importantes, na medida em que, tal como se pretende esclarecer, não se tratou somente de uma visita de cortesia. Como a investigação veio a demonstrar, tornaram-se mais claros os objetivos decorrentes da visita à Corte de D. Teodósio II, quer por parte dos embaixadores japoneses, quer em relação aos interesses políticos do ducado de Bragança.

 

Parece pois provável que, aliada a uma natural curiosidade despertada pela presença da comitiva japonesa em solo português, estivesse subjacente algum objetivo político, também tendo em conta a situação vivida durante este período em Portugal, com o reinado de Filipe II de Espanha. O relato da passagem por Vila Viçosa e a descrição de alguns episódios que tiveram lugar entre o Paço e a Tapada mereceram uma atenção especial, assim como a análise dos fatores que parecem ter estado na origem desta deslocação à Corte dos Duques de Bragança.

 

O escritor Tiago Salgueiro trabalha no Museu-Biblioteca da Casa de Bragança, em Vila Viçosa. É mestre em Museologia pela Universidade de Évora e licenciado em Antropologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Foi ainda bolseiro no Bourguiba Institute of Modern Languages da Universidade de Tunis (Tunisia) e na Facultad de Filosofia y Letras da Universidad de Cádiz (Espanha).

 

 

 

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