Póvoa de Varzim, Sociedade

Dia Nacional do Mar apelou à necessidade do “reencontro com o mar” na Póvoa de Varzim

Na passada sexta-feira à noite teve lugar, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, uma conferência proferida pelo Comandante Luís Adriano Cesariny Calafate intitulada “Reencontro com o Mar”.

A atividade, que encerrou as comemorações municipais do Dia Nacional do Mar, contou com a presença de José Macedo Vieira, Presidente da Câmara Municipal da Póvoa e Presidente da Rede Nacional de Cultura do Mar, e Henrique Souto, Vice-Presidente da Rede Nacional de Cultura do Mar e em representação da Sociedade de Geografia de Lisboa.

No seu introito à conferência, José Macedo Vieira disse que “o mar não é apenas um meio mas um fim em si mesmo. E que, se está disponível para nos levar a outras paragens, aprecia sobretudo que regressemos, e que nele nos concentremos”.

E sobre a história do nosso país, inevitavelmente ligada ao mar, o edil referiu “e Portugal, que pelo mar deu “novos mundos ao mundo”, e assim impulsionou grandemente o processo de globalização. Sempre que aqui nos sentimos mal, ao mar nos fizemos, e noutras terras vizinhas do mar nos estabelecemos e fixámos. Até que dessas terras nos afastámos e, no regresso, ao mar virámos costas”.

“E assim vivemos anos a fio, iludindo-nos em miragens que depressa se desvaneceram e nos conduziram ao atual sufoco”, constatou o Presidente, acrescentando que “preferimos ser periféricos numa Europa fechada em si mesma a ser centrais numa Europa que assuma a sua fachada atlântica como vetor geoestratégico para a competitividade à escala global”.

Neste sentido, advertiu “o mar é, hoje, um desígnio nacional irrenunciável, imperioso, urgente. Mesmo que a Europa queira continuar distante do seu velho e fundador eixo euro-atlântico, Portugal deve regressar, e em força, ao seu mar – o país, no seu todo: o governo central, as autarquias, as empresas, apostados em criar riqueza e postos de trabalho para os portugueses. É que, se Portugal detém hoje, graças aos seus territórios atlânticos, uma grande plataforma continental, estamos em vias de ultrapassar, neste domínio, a Noruega, o atual gigante marítimo europeu. O país pode, em breve, ter no mar uma extensão de território equivalente à da India, com tudo o que isso potencia em domínios tão vastos como a investigação científica, o desenvolvimento tecnológico, a geologia, a energia, o turismo, o desporto, as pescas. O futuro não é outra coisa senão o passado dinamicamente atualizado”.

Evidenciada a importância do mar a nível nacional, José Macedo Vieira definiu-o também como “desígnio municipal”, salientando que “tive a possibilidade de promover a reconciliação que tardava, devolvendo à população o espaço da enseada, outrora um agressivo depósito de lixos e mercadorias, e recriando assim a velha relação de proximidade, que se perdera”.

Se a nossa Póvoa, algum dia, para nosso mal, deixasse de ser terra de pescadores, nunca deixaria de ser terra de mar – que essa é a boa fatalidade genética a que estamos solidamente associados, afirmou Macedo Vieira, advertindo que “teremos de ser terra de mar, mas de um mar fecundo – local de pesca, local de recreio, local gerador de energia, local de estudo e de tudo aquilo a que o estudo conduza. Teremos de ser terra de mar, e do que dele vem. Teremos de acentuar a vertente marítima da nossa gastronomia urbana. A gastronomia com origem no mar tem de voltar ao ADN da nossa vivência urbana. Teremos de ser terra de mar e das novas atividades a ele associadas: a náutica de recreio, a náutica competitiva, a vela, o remo, o surf, a natação em águas livres. Teremos de desenvolver uma cultura de mar, não apenas pela revivência histórica da faina piscatória dos nossos antepassados, e dos mitos a ela associados, e das marcas que deixou na nossa memória coletiva e particularmente na nossa colmeia piscatória, mas também na vertente do turismo cultural com génese no nosso património marítimo, de que é expressão maior a Lancha Poveira do Alto, cuja presença no mar deve ser mais assídua. A próxima fase de desenvolvimento do município deverá ser orientada por este projeto de consolidação da componente marítima da nossa identidade”.

O Comandante Luís Adriano Cesariny Calafate começou por reconhecer que “é animador voltarmos a ouvir falar do mar sem os complexos do fim do Império mas sim numa perspetiva de futuro com inteligência e vontade de aproveitar de forma sustentada aquilo que generosamente nos oferece”.

O Capitão da Marinha Mercante informou que para potenciação económica e proteção desta enorme riqueza que é a zona exclusiva de Portugal, 18 vezes maior que o seu território terrestre, a maior da União Europeia, uma das maiores do mundo (11ª), e havendo ainda a hipótese de ser aprovada pelas Nações Unidas a proposta de extensão da plataforma continental que aumentará a área marítima sob soberania ou jurisdição portuguesa para mais do dobro da atual, isto é, 42 vezes no total, ficando assim unido pelo espaço marítimo o continente às regiões autónomas contrariando a nossa ideia de pequenez, parece-me indispensável que o país assuma um papel de liderança neste setor, rentabilizando esta vantagem.

O Comandante considera que é necessário assumir, numa perspetiva transatlântica, que somos um país central e não periférica tirando partido dessa posição estratégica de cruzamento de rotas intercontinentais e criar uma política portuária que atraia os navios aos nossos portos. Aproveitando também o crescimento das viagens de cruzeiro e a sua passagem pelos portos portugueses, criar empresas turístico-marítimas com programas de visitas em terra para que os passageiros conheçam o nosso país e incrementar as riquezas do mar como via de ligação dos continentes com transportes marítimos.

Luís Adriano Cesariny Calafate enumerou os diversos aproveitamentos e benefícios que o mar nos fornece nos mais variados setores e áreas de atividade referindo-se também ao sistema de produção de energia elétrica a partir das ondas do mar instalado ao largo de Aguçadoura, na Póvoa de Varzim.

Para o Capitão da Marinha Mercante, a entrada na EU foi um passo importante para quebrar com o nosso isolamento político mas nunca devíamos ter voltado as costas ao nosso património marítimo cuja sua presença física se nos mantem fiel. A grande fronteira com o mar não é uma fatalidade, é uma mais-valia, advertiu.

No sentido de assinalar as potencialidades do mar, afirmou que “tendo nós um território com um grande litoral e fronteira terrestre apenas com um país, o governo tem obrigação de assegurar a entrada de bens de consumo básico por via marítima, pois, neste momento, não temos navios de comércio suficientes”. Será necessário também investir na marinha mercante; criar condições de trabalho e de habitabilidade a bordo que atraia os jovens e mantenha os mais antigos para que haja no setor estabilidade e profissionalismo; integrar as várias tutelas ligadas ao setor; descentralizar, em todos os campos, apoios aos marítimos; é preciso investir nos recursos humanos; promover a investigação para melhorar a gestão do setor, entre muitos outros explanados pelo conferencista.

Os portugueses têm uma ligação afetiva ao mar mas esquecem o seu potencial e peso na economia do país, advertiu, acrescentando que dar novo impulso ao setor exige uma visão estratégica e conjugação de esforços que vai muito além da legislação. A tutela deverá ter vontade política para concretizar o aproveitamento das riquezas do mar. É um empreendimento que exige um grande esforço de todos nós. O mar não é um obstáculo mas sim um elemento de ligação e aproximação dos povos e culturas com enorme repercussão na economia.

Na esperança de ter contribuído para uma maior ligação dos portugueses ao mar e para o reconhecimento da importância que o mar pode ter para a recuperação económica do país, Luís Adriano Cesariny Calafate conclui a sua intervenção recorrendo ao título de uma obra do seu avô Caetano Vasques Calafate “Verbo, vigor e ação”: “faço votos para que o verbo com vigor lusitano se transforme em ação neste reencontro com o mar”.

A marcar o Dia Nacional do Mar, houve sessões educativas nas Escolas EB 2/3 do concelho “O Mar é Património”, por Manuel Costa, sensibilizando as crianças e jovens para a salvaguarda da memória das embarcações tradicionais poveiras, do património naval, abordando as artes da construção naval e da navegação. Na Escola EB 2/3 Dr. Flávio Gonçalves, houve uma Hora do Conto, na qual a obra A Menina do Mar de Sophia de Mello Breyner Andresen foi narrada aos alunos. Os utentes da Beneficente e população em geral visionaram o filme “Ala-Arriba” de Leitão de Barros, na Biblioteca Municipal.

 

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