Desporto

Morreu o condutor do carro vassoura da Volta a Portugal

Era um dos rostos da Volta a Portugal em Bicicleta. Durante anos conduziu com prazer e orgulho desmedido o carro vassoura, um dos mais característicos símbolos do ciclismo.

 

Joaquim Ezequiel morreu esta segunda-feira (2 Abril) aos 76 anos deixando mais pobre a modalidade que tanto amava e que considerava responsável por lhe ter alongado a vida. O funeral realiza-se hoje, 3 de Abril, às 15h na Misericórdia de Azeitão (junto à estrada principal), em Azeitão.

 

Ezequiel descobriu o ciclismo muito novo quando as provas passavam à porta de casa em Aldeia de Irmãos, Vila Nogueira de Azeitão. Depois de aplaudir a passagem dos ciclistas, montava a bicicleta e lá tentava acompanhar os corredores “a sério”. Mal começavam a subir a Serra da Arrábida percebia que para estar no ciclismo teria de escolher outra via. Entre as diversas tarefas que desempenhou ao longo dos anos, o maior reconhecimento veio do facto de ser o volante do último carro que fecha sempre cada caravana da Volta.

 

O protagonismo do “Vassoura”

 

O carro-vassoura é  o veículo que encerra qualquer prova de ciclismo de estrada e tem por missão recolher e transportar os corredores que por queda, acidente ou simples desistência abandonam a prova. O “Sr. Ezequiel”, como todos o conheciam foi uma figura reconhecida pela simpatia e por continuar, apesar da idade, a conduzir essa viatura tão peculiar que se modernizou e ganhou estatuto de vedeta na caravana da Volta a Portugal.

 

Ao chegar ao ciclismo, a Lagos Sports dignificou o veículo com uma decoração própria que não passa despercebida aos olhos de ninguém. Longe vão os tempos em que apenas uma ou duas vassouras agarradas ao alto à carrinha identificavam este símbolo do ciclismo. Para reforçar esta marca identificativa, Joaquim Ezequiel gostava sempre de contar um episódio caricato. “Durante uma etapa tive de parar o carro, o que aconteceu junto a duas senhoras, mais ou menos da minha idade, que ali estavam à espera da passagem da caravana. Mal parei comentaram: “Olha, está aqui o carro-vassoura!” E a outra: “Olha, é sempre o mesmo velho!” Ezequiel contava com grande entusiamo que foi uma enorme alegria ouvir aquelas palavras. Até as considerou um piropo. Ele próprio já se sentia parte da mobília da Volta.

 

De tantos quilómetros pelo país guardava boas memórias com excepção de 1989. Nesse ano com a saúda periclitante falhou a Volta “Aí é que chorei! Fiquei profundamente triste e chorei ainda mais quando inesperadamente ao ouvir na rádio o relato entusiasmado do Fernando Emílio durante o contra-relógio final ele se sai com esta: “- E agora o que dirá Joaquim Ezequiel que está na cama com um problema e que não está na Volta a Portugal…”

 

Desfiz-me em lágrimas a ouvir aquilo e senti-me longe do espectáculo, longe daquele mundo em que tudo é camaradagem e amizade. Sabe? No ciclismo não há “doutores”, somos todos iguais, não há “senhor engenheiro”, não há “senhor doutor”…ó Ezequiel, ó fulano… assim é que eu acho que é bonito… somos todos iguais…”

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