Cultura, Póvoa de Varzim

Zonas pedonais: passado, presente e futuro, apresentados por Miguel Loureiro na Póvoa de Varzim

As “Zonas pedonais – Historial” foi o tema abordado por Miguel Loureiro, ontem à tarde, no Arquivo Municipal, no âmbito da iniciativa “À quarta (h)à conversa”.O arquitecto poveiro abordou o conceito, a origem, a evolução, o presente (e talvez o futuro) destas áreas, com o intuito de informar um pouco mais sobre esta temática. Quanto ao conceito, esclareceu que peão, ou pedestre, é uma pessoa que viaja a pé, a andar ou a correr. Na actualidade, o termo refere-se a qualquer transeunte que caminha numa rua, mas na Europa, historicamente, pode não ser esse o caso.Hoje em dia, a maioria das vias são rodoviárias, possuem um passeio anexo exclusivamente para o trânsito de peões e em muitos casos para ciclistas, existem no entanto ruas exclusivas para peões (com acesso eventual de viaturas: ambulâncias e carros de bombeiros), ruas para todos, mas com prioridade para os peões e ciclistas (Woonerf) e vias exclusivas para carros (as auto-estradas), proibidas a peões e ciclistas, informou.

Referindo-se à origem das cidades, Miguel Loureiro revelou que uma das mais antigas cidades do mundo (entre 10.000 a 7.000 A.C.) é Çatal Huyuk, descoberta em escavações no centro sul da Turquia, e entre as mais antigas, frutos do desenvolvimento agrícola, destacam-se as localizadas na Mesopotâmia, construídas pelos caldeus, cerca de 5.000 a 6.000 anos A.C., sendo as mais famosas, Ur e Uruk. O arquitecto referiu-se ainda às cidades gregas, romanas, medievais e às “Plazas Mayores”.

Entretanto, “nos finais do século XIX e início do século XX, depois da descoberta do motor de combustão interna, chegaram os primeiros automóveis, mais velozes e por isso mais perigosos para o peão e obrigando a novas alterações da malha urbana, com a adaptação dos arruamentos e a construção de novos, bem mais largos, dando-se a prioridade a este novo senhor”, continuou.E tal com hoje, aconteceu mais uma guerra (na Europa) para deitar abaixo o que tanto custara a erigir, obrigando à reconstrução de muitíssimas cidades no pós guerra, que com a democratização do automóvel obrigou a novas estruturas urbanas, que deram mais uma vez e mais vincadamente a supremacia a todos os meios de transporte motorizados, relegando o peão. Ao mesmo tempo, surgiam novas teorias urbanísticas, destacando-se a Carta de Atenas, que pretendiam repor a importância do homem na cidade e desenhá-la em seu proveito e para sua defesa, o que deu início, na década de 50, na Europa, à recriação de ruas e praças exclusivas para peões, renovando os cascos medievais, mas mais vocacionadas à promoção do comércio. Na Póvoa de Varzim, nos finais da década de 50, surgiu a primeira rua pedonal, já exclusivamente comercial e trajecto natural para a zona balnear.

Sobre a situação actual, Miguel Loureiro constatou que “a função estritamente comercial deixou de ter o peso de sempre e as exigências dos cidadãos para a criação de ruas pedonais passaram mais por um factor para a qualidade de vida, pela melhoria do ambiente urbano e consequentemente pelas repercussões positivas na saúde pessoal. Para além de questões técnicas, há alterações estruturais, ambientais, comerciais, económicas e sociais, que acontecem consequentemente, umas boas (Melhoria da qualidade ambiental; Melhoria do trânsito; Promoção da residência no centro; Melhoria das ruas traseiras de acesso; Mais transeuntes; Mais vendas; Melhoria das lojas e das fachadas; Aumento do preço dos terrenos e imóveis; Aumento das rendas; Proporcionar actividades sociais, culturais e de ocupação de tempos livres; Funcionamento depois do fecho do comércio), outras más (Desvalorização das ruas adjacentes; Desvio de pessoas para estas zonas, com sobrecarga de trânsito nas ruas adjacentes; Criação de mais estacionamento; Abandono das periferias e deslocalização dos negócios pequenos e médios; Aumento do preço dos terrenos e imóveis; Aumento das rendas; As funções não comerciais resistem com dificuldade; A habitação torna-se de luxo). Para além disso, referiu-se aos dez princípios do Novo Urbanismo: Pedestrianização; Conectividade; Uso Misto e Diversidade; Habitação mista; Arquitectura e Design Urbano de qualidade; Estrutura tradicional de bairro; Aumento da densidade; Transporte inteligente; Sustentabilidade; Qualidade de vida.

Quanto ao futuro, o arquitecto deixou a seguinte reflexão: “perante a situação financeira, económica e política em que vivemos, hoje e agora, perante a realidade com que já nos cruzamos nas nossas ruas, hoje e agora, em que a presença chinesa se impõe com a nossa complacência e colaboracionismo, tudo o que dissemos aqui sobre a evolução da cidade para o homem, talvez tenha sido perda de tempo, ou apenas cultura geral, já que seremos aculturados pela sinologia e teremos em troca por tudo o que defendemos, umas “Chinatowns”, sem regras nem qualidade, apenas com a preocupação comercial, o que dará origem a nova secundarização do peão com a fuga do centro da cidade para umas “reservas” na sua periferia.”

 

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