Cultura, Póvoa de Varzim

David Machado, José Jorge Letria e Ricardo Romero lançam obras na Casa da Juventude – P. Varzim

 David Machado, José Jorge Letria e Ricardo Romero lançaram as suas mais recentes obras, ontem ao final da tarde, na Casa da Juventude.
Deixem Falar as Pedras, de David Machado, narra a história de Nicolau Manuel. No dia em que se ia casar, Nicolau Manuel foi levado pela Guarda para um interrogatório e já não voltou. Viveu, assim, quase toda a vida na urgência de contar a verdade a Graça dos Penedo, a noiva que mais tarde lhe seria arrebatada pelo alfaiate que lhe fizera o fato do casamento. Porém, sempre que se abria uma possibilidade, uma ameaça desviava-o dramaticamente do seu destino – e agora, meio século volvido, está velho de mais para querer mudar as coisas, gastando os dias com telenovelas.
De tanto ter ouvido ao avô a sua história rocambolesca, Valdemar – um rapaz violento e obeso apaixonado pela vizinha anoréctica e fã de heavy metal – não desistiu, mesmo assim, de fazer justiça por ele. E, ao encontrar casualmente a notícia da morte do alfaiate, sabe que chegou a hora de falar com a viúva: até porque essa será a única forma de resgatar Nicolau Manuel da modorra em que se deixou afundar.
Alternando a narrativa dos sucessivos infortúnios de Nicolau Manuel – que é também a história de Portugal sob a ditadura, com os seus enganos, perseguições e injustiças – com a de um adolescente que mantém um diário com numerosas passagens rasuradas como instrumento de luta contra o mundo –, Deixem Falar as Pedras é um romance maduro e fascinante sobre a transmissão das memórias de geração em geração, nunca isenta de cortes e acrescentos que fazem da verdade não o que aconteceu, mas o que recordamos.
José Jorge Letria apresentou O Livro dos Amantes – Grandes História de Amor. Nos grandes amores, existe sempre alguma coisa que os faz vencer as barreiras do tempo e do espaço. É assim que se eternizam e se tornam universais. Em alguns casos, deve-se à sua dimensão trágica o modo como conquistam a posteridade. Esta regra é válida para os amores antigos e para os modernos, para os portugueses e para os estrangeiros. Pedro I e Inês de Castro, Napoleão e Josefina, Almeida Garrett e a viscondessa da Luz, Oscar Wilde e Lord Alfred Douglas, Sylvia Plath e Ted Hughes, Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szènes, Gertrude Stein e Alice B. Toklas, John Lennon e Yoko Ono, Francisco Sá Carneiro e Snu Abecassis são apenas alguns dos pares que ganharam lugar cativo na galeria dos grandes amantes. Para além das dezenas de histórias de amor que este livro de José Jorge Letria evoca e consagra, muitas outras poderiam ser lembradas. Em todos os casos, o protagonista principal é o próprio amor, tenha ele ou não a forma de paixão.
O Livro dos Amantes é uma obra para todas as estações e para todos os corações, para os que sofrem ou para os que vivem exaltados pela sensação de felicidade. Todos nele encontrarão um pouco de si, um pouco do que os faz considerar único e avassalador aquilo a que Luís de Camões chamou “fogo que arde sem se ver”.
Ricardo Romero descreve, assim, Nenhum Lugar: “O silêncio e a calma do deserto só eram interrompidos pelo chispar do seu isqueiro. Acendia-o e colocava-o em frente dos olhos esperando que o vento o apagasse. Quando o vento o apagava, voltava a acendê-lo e a chama elevava-se por um instante, vibrando na sua alaranjada transparência, até que a brisa o fazia desaparecer outra vez. “Talvez devesse comprar um cachimbo” – pensou Maurício, “dizem que é uma boa maneira de deixar de fumar”. Isto era o que Maurício pensava. Entretanto, todo o deserto parecia estar à espera que o seu isqueiro ficasse sem gás.”

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