Cultura, Sardoal

Antigas máquinas de projectar trazem História do Cinema no Sardoal

Duas antigas máquinas de projectar filmes, que funcionaram no velho Cine-Teatro Gil Vicente (demolido em 1989 e onde hoje se encontra o Lar de Idosos da Misericórdia), foram recuperadas e restauradas pelo Município e vão ser expostas ao público no actual Centro Cultural Gil Vicente.

            Uma pequena cerimónia simbólica, em 5 de Junho próximo, às 16 horas, assinalará o acontecimento, que foi integrado nas celebrações dos 500 anos da Misericórdia de Sardoal. Na ocasião será exibido um DVD com uma película desses anos com entrada livre. O Município tentou uma parceria com a Cinemateca Portuguesa para a projecção de um filme, mas os elevados encargos com a cedência não permitiu o projecto. Quanto às distribuidoras comerciais, estas já não possuem em stock cópias de filmes destas épocas.

            As máquinas foram cedidas pela Misericórdia, sua proprietária e responsável pela exibição comercial de filmes em tempos idos e foram remontadas pelos técnicos em serviço no Centro Cultural. A mais antiga, de marca “Gaumont Paris” funcionou no Sardoal entre 1940/41 até 1960. O outro engenho, mais moderno, marca “Klank Film”, entre 1967 e 1977.

O Município e a Misericórdia de Sardoal pretendem, assim, criar um singelo pólo museológico dedicado à História do Cinema no Concelho, História essa cujos contornos são imprecisos e dispersos pela memória de muitas pessoas, cujos testemunhos nem sempre coincidem. Crê-se que as sessões de cinema tiveram início na Vila em 1940 ou inícios de 1941. Pelo menos, em Setembro deste último ano, uma notícia do “Jornal de Abrantes” sobre as Festas em louvor de Santa Maria da Caridade, anunciava que o respectivo programa de animação incluía a exibição de um filme. O cinema era promovido pela Misericórdia sendo seu Provedor o Padre Eduardo Dias Afonso. Estas sessões duraram até Dezembro de 60, sendo depois interrompidas, dado que a sala deixara de possuir as condições adequadas para o efeito, segundo as regras da Direcção Geral de Espectáculos.

Nessa época faziam furor as fitas portuguesas, designadamente as protagonizadas por artistas de grande fama, como António Silva, Vasco Santana, António Vilar, Mirita Casimiro, Milú, Ribeirinho, Maria da Graça, Laura Alves, Beatriz Costa, Amália Rodrigues, Artur Ribeiro e muitos outros. Filmes como “Capas Negras” e “A Luz vem do Alto”, obtiveram grande sucesso. Os primeiros projeccionistas sardoalenses foram Manuel Correia e Amadeu Correia (pai e filho).

Em 1964, com a entra de Álvaro Andrade e Silva Passarinho para Provedor da instituição, foram efectuadas algumas obras de reconversão no Cine-Teatro, criadas saídas de emergência, substituído o telhado, instalados sanitários e bar, e pintado o tecto com tinta não inflamável. As sessões regulares nesta nova fase recomeçaram em 9 de Abril de 1967, através do filme “A Bela Lola”, com a prestigiada estrela espanhola Sara Montiel.

Nesta ocasião, a sala possuía uma lotação de 344 lugares sentados, repartida por três sectores: à frente a geral reservada (bancos corridos), ao meio a superior (cadeiras normais) e atrás, os mais caros, as cadeiras (tipo poltronas com assentos reclináveis). Tudo em madeira. Sem estofos. Saliente-se que uma boa parte dos lugares estavam sempre reservados para as mesmas pessoas, que pagavam bilhete, mesmo que não assistissem às sessões. Era uma espécie de “assinatura”.

O espectáculo cinematográfico era muito popular no Sardoal. Frequentes vezes a lotação esgotava e os filmes eram bastante comentados no dia-a-dia das pessoas. Muitos adultos de agora ainda contam episódios de “ver os filmes escondidos atrás das cortinas” por não terem idade para entrar. O cinema era o fascínio onde cada um interiorizava os dramas, comédias e aventuras que passavam pela tela. Tinham essencial relevância para o imaginário juvenil (e não só) as fitas de “cowboys” e índios, as de “espadeirada” (de espadachins) ou as de “romanos” (de gladiadores). Para os corações românticos, a deliciosa saga musical do italiano Gianni Morandi ou da espanhola Marisol, eram ouro sobre azul.

Ao nome principal masculino do elenco, designadamente em filmes de aventura ou acção (“filmes de porrada”) a cachopada designava-o por “o actor” ou “o artista”, dando-lhe uma dimensão quase épica. Era tudo dele, “a mulher do actor”, “o cavalo do actor” e assim por diante…

Mas, por vezes, existiam contratempos. Amiúde, a película de celulóide partia-se porque “a máquina aquecia e os carvões queimavam-se”. De vez em quando, era impossível recomeçar e a sessão acabava a meio, perante os protestos da assistência. Os “carvões”, não eram mais que os eléctrodos que serviam para dar luz. Essas peças da engrenagem (uma mais grossa, outra mais fina) iam-se gastando à medida que a projecção decorria e era necessário aproximá-los com cuidado para que o feixe luminoso pudesse levar a imagem ao ecrã. Longe das actuais técnicas automáticas, todo este trabalho era executado manualmente. O projeccionista tinha ainda que cortar e raspar as fitas, colando as pontas com acetona.

O último filme desta fase foi exibido em 26 de Fevereiro de 1977 e chamava-se “O Filho do Zorro”.

O cinema só regressou ao Sardoal 28 anos depois. Em 25 de Março de 2005 foram iniciadas as sessões comerciais no nóvel Centro Cultural Gil Vicente, inaugurado em Setembro de 2004. o primeiro filme desta época foi “A Paixão de Cristo”. Daí até aos nossos dias cerca de 15 mil espectadores de cinema já passaram pela sala.

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