Cultura, Póvoa de Varzim

Armando Marques de volta ao Arquivo Municipal para recordar tradições Pascais – P. Varzim

Ontem à noite, 31 de Março, Armando Marques esteve no Arquivo Municipal para partilhar, uma vez mais, com o público as suas recordações do Ciclo Solene e Festivo da Páscoa na Póvoa de Varzim.
O antigo chefe do Serviço de Turismo da Câmara Municipal referiu que este período teve desde sempre na nossa cidade um programa muito rico onde actos religiosos e profanos se agregam, lembrando que as Solenidades Pascais têm início 40 dias antes do Domingo de Páscoa, na Quarta-feira de Cinzas, e terminam 40 dias depois na Quinta-feira da Ascensão, que é celebrada em Argivai com a Festa das Lestras e Procissão do Senhor dos Milagres.
A partir da Quarta-feira de Cinzas e até ao meio-dia do Sábado de Aleluia, época designada de Quaresma, as igrejas adquiriam uma imagem muito singular, “tapavam-se os altares, retiravam-se as flores e apagavam-se as velas”, revelou Armando Marques. Outra das tradições religiosas que marcavam o início do tempo Pascal era a imposição das cinzas e a Procissão dos Entrevados, solenidade dirigida a “quem estivesse doente ou preso” que tinha “que se desobrigar”, acrescentou.
Serra-essa-Velha foi outra das manifestações recordadas por Armando Marques que esteve durante muito tempo adormecida na cidade, tendo sido recuperada pela JuveNorte há dois anos atrás, para gáudio dos mais idosos que a recordavam com muito saudosismo. A iniciativa é descrita como um exercício público de crítica, já que na rua vão sendo ditas rimas de mal dizer, tendo como principal alvo as mulheres mais velhas.
Os Bailes de Micareme eram outra das actividades que marcavam o tempo de Quaresma que se realizavam nos bombeiros da Póvoa de Varzim e Vila do Conde. Segundo Armando Marques “os padres nunca gostaram deste baile” dado o seu carácter festivo.
No âmbito das celebrações da Semana Santa, a Póvoa de Varzim realizava e continua a realizar três Procissões dos Passos, sendo que a primeira se realiza em Amorim, segue-se a Póvoa de Varzim e por último em São Pedro de Rates. Em Amorim, esta procissão decorria no terceiro Domingo da Quaresma e era também designada por “O Atésa”, sendo sempre marcada por ventos muito fortes que exigiam muita força por parte dos homens que carregavam os pendões e bandeiras processionais. No domingo seguinte, a Santa Casa da Misericórdia organiza a procissão na Póvoa de Varzim e no dia em que a cidade celebra o Domingo de Ramos, em São Pedro de Rates sai às ruas a Procissão dos Passos.
Outra tradição perdida no tempo e abordada por Armando Marques foi a dos Bois da Páscoa. Em tempos passados, a tarde da Quinta-feira Santa era dedicada a esses animais, gordos e luzidios, enfeitados com sinos, flores e fitas vermelhas, que percorriam as povoações limítrofes antes de se dirigirem para a Póvoa. Acompanhados do seu proprietário e de uma moça vestida com traje minhoto a preceito, aqueles animais desfilavam pelas ruas da cidade e terminavam frente à Câmara Municipal, onde um júri apreciava os animais para atribuição de prémios. Esta iniciativa decorreu pela última vez em Abril de 1974, pois “a partir do 25 de Abril nunca mais se fez”, informou Armando Marques. A Quinta-feira Santa era também marcada pela visita às Igrejas, ritual que ainda hoje é cumprido por muitos poveiros que gostam de apreciar os arranjos das igrejas e capelas feitos com o maior cuidado, algumas das quais com encenações alusivas à quadra pascal, que ficam abertas até cerca das 24 horas de quinta-feira para serem visitadas pelos fiéis.
Na Sexta-feira Santa, destaca-se a Procissão do Enterro do Senhor que durante muitos anos se realizou à tarde mas há cerca de 30 anos passou a ser à noite, contando com a participação das Autoridades Civis e Militares. No Sábado de Aleluia, durante a manhã, realizava-se a bênção da água e ao meio-dia “caíam os paramentos negros, os altares eram descobertos e os rapazes iam com campainhas pelas ruas da cidade anunciar a festividade da ressurreição”.
Outra manifestação de carácter profano deste período referida por Armando Marques é a Queima do Judas, cuja Leitura do Testamento foi retratada, pela primeira vez, por António Batista e actualmente é recriada pela Juvenorte segundo a qual Judas entregou Jesus à morte, tornando-se por isso o apóstolo traidor.
O Domingo de Páscoa era marcado pela ida ao padrinho para buscar a rosca e pela Visita Pascal. Enquanto a aguardavam, os poveiros jogavam a péla nas ruas, jogo bem conhecido daqueles que se dedicam ao estudo dos nossos costumes. Como muitos outros esse hábito foi-se perdendo e hoje dificilmente vemos a prática dessa tradição que também servia de entretenimento na Segunda-feira de Páscoa, no Anjo.
As solenidades Pascais são retomadas no primeiro Domingo depois da Páscoa, conhecido por Domingo de Pascoela, em Argivai, onde se presta homenagem à Nossa Senhora do Bom Sucesso, à qual se associam momentos musicais, característicos das romarias portuguesas.
Armando Marques será novamente convidado do Arquivo Municipal para a iniciativa À quarta (h)à conversa, a 16 de Junho, para falar de outra tradição poveira muito marcante, o São Pedro.

Artigo AnteriorPróximo Artigo

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *