Cultura, Póvoa de Varzim

União Soviética e Angola – uma relação investigada em livro apresentado na Póvoa de Varzim

José Milhazes, historiador e jornalista poveiro, apresentou, na passada sexta-feira, 18 de Dezembro, o livro Angola – O Princípio do Fim da União Soviética. O Diana Bar encheu-se para ouvir falar do livro e do passado, presente e futuro da Rússia.
José Macedo Vieira, Presidente da Câmara Municipal, acompanhou o autor nesta sessão de lançamento, lembrando que José Milhazes partiu para a União Soviética ainda novo, para estudar e que, por isso, “participou num dos episódios mais marcantes do século XX, seguiu de perto esta grande transformação que foi a queda do Muro de Berlim e a mudança de regime”. Por isso, o autarca considerou ser uma honra receber José Milhazes, que, por ser ocidental “pode ter uma visão diferente da nossa”.
A Carlos Mateus, outro velho amigo do autor, coube a apresentação do autor e da obra. Caracterizando José Milhazes como um homem que “frequentou os lugares certos e conheceu as pessoas certas”, sendo por isso o seu percurso marcado por um “conjunto de coincidências felizes”, Carlos Mateus recordou que José Milhazes colabora com a imprensa portuguesa, escrita, falada e audiovisual. Sobre a obra, apresentou algumas questões, como o porquê de escrever um livro sobre Angola quando José Milhazes “é europeu e anti-colonialista”. No entanto, e como referiu, Angola – O princípio do fim da União Soviética é um “volume cuidado”, feito a partir da consulta de documentos e entrevistas a agentes políticos da altura. “Vê-se que a façanha não foi fácil, houve dificuldades na investigação, já que a história ainda é secreta”. É um livro sobre a relação dos movimentos militares de libertação de Angola com a União Soviética e sobre os muitos militares soviéticos que estiverem em Angola e que são hoje veteranos esquecidos. “É sempre um prazer ouvir falar o José Milhazes porque diz o que sabe e sabe o que diz”, concluiu.

 
“Tenho duas profissões muito próximas – historiador e e jornalista e vi-me confrontado com dados que em Portugal não eram conhecidos”. Assim justificou José Milhazes a investigação que levou a este livro. “Em Portugal já há bastante literatura escrita pelos que assistiram aos conflitos em Angola”, considerou, relembrando que se fazem referências à participação americana “mas há lapsos quanto à intervenção soviética. Queria tapar esta lacuna, claro que não consegui, isto é apenas o princípio. É um tema que está em movimento, daí que isto levou a que me interessasse cada vez mais”. Com Angola – O Princípio do Fim da União Soviética, José Milhazes pretende também desmistificar alguns aspectos da máquina soviética. “Alguns mitos ficam na cabeça das pessoas como verdades absolutas. Por exemplo, o mito de que a direcção soviética era precisa como um relógio. Era sim um centro de discussões. O que transparecia para fora era a decisão já tomada, que muitas vezes não era a mais correcta”.
Sobre as razões que levaram ao fim da União Soviética, José Milhazes aponta sobretudo razões económicas. Referindo que as guerras dentro da Guerra Fria eram feitas no 3º mundo, o jornalista explicou que a URSS gastou quantias astronómicas em armas e munições em Angola. A máquina soviética foi incapaz de suportar os custos relacionados com a alimentação dos soldados ou com o armamento nuclear, situações agravadas pelos inúmeros conflitos regionais em África. “O que ganharam? Não ganharam muito, porque não tinham uma economia inteligente para aproveitar as riquezas de Angola. O modelo implantado foi fraco, como por exemplo, a criação de comunas agrícolas”. Outro mito que José Milhazes tenta aclarar é o mito de que “a URSS ditava como se fazia o que não é bem verdade. Muitas vezes, os dirigentes africanos ouviam conselhos e faziam exactamente o contrário”. Assim, no final, “quem mais perdeu foram os angolanos, pois passaram muito tempo consecutivo em guerra”.
Daqui, partiu-se para uma conversa com o público sobre o livro, o presente e futuro da Rússia, um país enorme, com uma balança de importações e exportações desequilibrada, marcado pela corrupção. Um país que se não der o ‘salto’ agora corre o risco “de ficar sempre para trás”. Mas como José Milhazes referiu, “os dirigentes ocidentais também não são santinhos”.

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