Cultura, Póvoa de Varzim

Correntes d’Escritas – dez anos a falar a língua da escrita, entre amigos – P. Varzim

Terminou a décima edição do Correntes d’Escritas, com a habitual entrega dos prémios literários. Mas o que é o Correntes d’Escritas, para onde vai?
Sendo este o ano dez do Correntes, o balanço parece ser mais do que propício e melhor do que ninguém para o fazer, são os próprios escritores participantes que o vivem intensamente e fazem parte dele.
Manuel Rui, angolano, e Onésimo Teotónio Almeida, português, assistiram ao nascimento do Correntes d’Escritas, em 1999. Assistiram e participaram. “O primeiro encontro foi uma festa, um encantamento criado pela magia das palavras de gente que só sabe contar histórias”, recordou Onésimo Teotónio Almeida. E deste espaço que junta escritores vindos de todo o mundo ibérico renasce, todos os anos, “um encontro de afectos, de conhecimento, de aperfeiçoamento da nossa escrita”, nas palavras de Manuel Rui.
José Mário Silva, que até à nona edição assistiu ao Correntes “do lado de fora”, enquanto jornalista, participou este ano pela primeira vez como convidado. Considera o Correntes d’Escritas “um acontecimento único em Portugal e não apenas na área da literatura, também na área cultural. É excepcional pela qualidade dos participantes e da organização.” Já Fernando Pinto do Amaral, que participou pela terceira vez, refere “a possibilidade de estar junto dos vários intervenientes do livro. Não só com escritores, mas também com editores, jornalistas”, adquirindo assim o Encontro um espírito mais aberto.

“Uma percepção extraordinária. É o melhor encontro a que assisti na vida e assisti a muitos”, afirmou o chileno Bruno Serrano, também a participar pela primeira vez. “É uma proposta cultural com um grande respeito pelos escritores e escritoras, que valoriza profundamente a literatura”. Já António Cícero vê no Correntes “uma característica muito interessante porque normalmente este tipo de encontros têm uma vertente muito académica e este não.” E Aurelino Costa, que não tendo participado desde a primeira edição, já perdeu a conta aos anos em que participa dá outra definição do Correntes, “é um movimento de encontro em substância de vários escritores, com obras diversas, ideias diversas, que penso purgarem  por um mínimo exigível de criação onde se encontram os ‘resíduos’ da não-repetição.”
Vencedor do Prémio Literário Casino da Póvoa, com a obra A Moeda do Tempo, Gastão Cruz ficou impressionado “com a dimensão e dinâmica do Encontro”, pela adesão de uma audiência “tão vasta.” Fernando Pinto do Amaral referiu também a variedade do programa, “único e muito diversificado.”
Das mesas de debate ao lançamento de livros, das sessões de poesia ao cinema, ao teatro, à música. Tudo isto conviveu durante quatro dias na Póvoa, ou, como diz Onésimo Teotónio de Almeida, “dias intensos numa festa de palavras”, numa experiência que só pode ser vivida “in loco.” Eucanãa Ferraz considera que “o principal é o trabalho com as escolas. Trabalhar para formar novos públicos. Repare, são dez anos de Correntes d’Escritas. Alguém que tenha assistido há dez anos numa escola, pode estar a assistir hoje no Auditório. E daqui por outros dez anos pode ser já escritor.”

 E o futuro do Correntes, qual é? Pode melhorar, não deve mudar? “O que é fundamental é que o Correntes não perca a sua identidade”, diz José Mário Silva, identidade essa que passa por um espaço de coesão, de diálogo e de articulação. “O receio é que o Correntes cresça demais e se torne tão grande que este espírito desapareça”, continua. “Décimo aniversário representa um limite, tendo em conta as características da cidade e até do Auditório Municipal. Por isso, não deve crescer mais, corre o risco de perder o encanto.” Já Fernando Pinto do Amaral acha que “é sempre possível melhorar, mas o Correntes d’Escritas encontrou o tom certo.”
E o que levam os escritores para casa, quais os sentimentos que transportam na bagagem? Diz Bruno Serrano que, sendo possível a participação de mais escritores latino-americanos, como do seu Chile natal, “gostaria muito de partilhar com eles o que isto significa para mim. Muitas oportunidades de conhecimento, de vínculo afectivo com outras pessoas, de abertura a outras culturas. Sobretudo de sentir dignificada a profissão de escritor.”

O que é o Correntes d’Escritas? “Venha ver e fica sabendo”, desafia Eucanãa Ferraz. “Todos falam a mesma língua, a língua das escritas.”
Em que acredita? “Acreditamos na força da LITERATURA; acreditamos na força da PALAVRA; acreditamos na força de ESCRITORES e POETAS; acreditamos na força dos LIVROS. Por isso lhes damos ‘guarida’. Por isso, nestas Correntes, todos se tornam ‘tão cúmplices’”, pode ler-se no texto de apresentação do evento no portal municipal.
Revisite a edição dez do Correntes d’Escritas, que para o ano volta em Fevereiro, em www.cm-pvarzim/go/correntesdescritas

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