Cultura, Matosinhos

Três dias de festa… em torno da poesia! – Matosinhos

Durante três dias, a Biblioteca Municipal Florbela Espanca foi o palco da Festa da Poesia, um evento que cada vez mais marca a agenda literária a nível nacional, ou não fosse este um momento de comemoração das palavras, durante o qual se vive  de corpo de alma a Poesia.

Encontros com escritores, concertos, exposições, espectáculos, oficinas, lançamento de livros, nada falta para que se possa sentir a poesia nas suas diferentes formas e sentidos.

À poetisa Florbela Espanca, que empresta o seu nome à biblioteca municipal, foi dado um especial destaque, assinalando-se a data do seu nascimento e morte, dia 8, numa viajem pelo seu íntimo. No sábado, dia 6 de Dezembro, pelas 17 horas, foi apresentado pela escritora Inês Pedrosa e pela ensaísta brasileira Maria Lúcia dal Farra, o livro Perdidamente, uma co-edição Quasi/Câmara Municipal de Matosinhos.

 Este livro, constituído por mais de 300 páginas, apresenta cartas inéditas de Florbela Espanca, redigidas entre 1920-1925. Esta correspondência de Florbela Espanca é da maior importância para o Fundo de Reservados da Biblioteca Municipal Florbela Espanca, que integra espólios de outros importantíssimos escritores e homens de cultura, como António Nobre, Armando Lessa e Óscar da Silva.
Este espólio foi adquirido pela Câmara Municipal de Matosinhos no ano de 2006 a um particular e é composto por manuscritos autógrafos, cartas da autora e para a autora, um quadro do irmão Apeles, documentos biográficos, impressos da autora e sobre esta, bem como centenas de recortes de imprensa com vários versos e artigos.

A correspondência que constitui o núcleo mais importante deste espólio, abrange o período do início da relação de Florbela (à data ainda casada, mas separada de Alberto Moutinho) com António Guimarães, que viria a ser o seu segundo marido (1920, início da relação – 1923, primeiros sinais da ruptura que ocorrerá em 1924).

Também na tarde de sábado, foi inaugurada a exposição multimédia e interactiva “Itinerário de uma paixão”. Com uma componente cronológica, esta exposição é baseada no espólio da biblioteca de e sobre Florbela Espanca. “Itinerário de uma paixão” é o ponto de partida e elemento estruturante da exposição dos documentos da autora.

Esta exposição revela o secretismo inicial da relação entre Florbela e António, que leva a que os seus encontros se realizem nas viagens de eléctrico entre Lisboa-Dafundo, Algés; o percurso da relação: da paixão inicial e confiança plena no sucesso da mesma, ao esfriar dos sentimentos, surgidos da incompatibilidade dos feitios…

A Festa da Poesia é também para os mais novos. Por isso, na manhã de sábado, dia 6 de Dezembro, o Teatro da Vilarinha trouxe até ao Auditório da Biblioteca Florbela Espanca a peça, Palavras para Que Vos Quero, que proporcionou aos mais novos o encontro com a poesia, procurando-se, através deste espectáculo, a redescoberta da língua portuguesa e da dimensão criativa da linguagem literária. À mesma hora, na Biblioteca Anexa de S. Mamede Infesta, e direccionada à mesma faixa etária, foi exibida a peça, “Volta ao Mundo, uma Viagem de Circo-Navegação”, pelo Limite Zero. Um espectáculo de actores e marionetas que aborda a época áurea dos descobrimentos.

Com uma admirável adesão por parte de um público intergeracional e heterogéneo, as três edições anteriores da Festa da Poesia registaram a presença de nomes como Ana Luísa Amaral, Manuel António Pina, Nuno Júdice, Gastão Cruz, Catarina Nunes de Almeida, Daniel Jonas, Luísa Ducla Soares, António Torrado, José Jorge Letria, Camané, Sérgio Godinho, Jorge Palma, Rão Kyao, J.P. Simões, Duarte Belo, Leonor Seixas, Ruy de Carvalho, entre nomes de paragens mais distantes como Paula Meehan (Irlanda), Claude Guerre (França), Abdelilah Suisse, Conceição Lima (S.Tomé) ou Luís Carlos Patraquim (Moçambique).

Estas revelaram-se uma aposta totalmente ganha, marcando indelevelmente o panorama cultural da região nesta altura do ano, confirmando um desígnio continuado da Câmara Municipal de Matosinhos – garantir a promoção e divulgação da Poesia, da Língua Portuguesa e das artes a estas associadas, promovendo o conhecimento e a cultura enquanto valores universais.

E o primeiro dia da Festa da Poesia fechou em festa com a fadista Ana Moura. No Salão Nobre da Câmara Municipal, às 22.00h, foi possível comprovar que os seus concertos são puro Fado, sem dramas nem exageros. Razão pela qual o seu canto tem arrepiado plateias nas mais prestigiadas salas pela Europa, EUA e Oriente. Um dos pontos altos, sem dúvida, a descoberta ao vivo de “Os Búzios”, tema single de lançamento de Para Além da Saudade.

O segundo dia abriu às 11.00h com um conto musicado, interpretado pela Escola de Música Óscar da Silva, baseado na obra do escritor belga e residente em Portugal, Eric Many, com o nome, Hipólito, o Filantropo. A flauta de Jorge Alexandre Costa e a voz de Sílvia Correia, captaram os sentidos e a atenção dos mais novos. Meia hora mais tarde, foi a vez de Olá Quaquá entrar em cena. Uma peça de teatro de fantoches com música interactiva, para bebés dos 12 meses aos 3 anos.

A tarde começou no auditório da Biblioteca Municipal, com a peça de teatro As Velhas, onde duas mulheres, por volta dos setenta anos, recebem o público na sala de estar de sua casa, para uma tertúlia literária. Este sarau, muito especial, foi preenchido com poesia, canções, humor e reflexão social.

Também na tarde de domingo, a actriz Natália Luiza leu os melhores autores da poesia portuguesa e foi ainda possível estar à conversa com Manuel Freire. O célebre intérprete da Pedra Filosofal, de António Gedeão, esteve acompanhado da sua guitarra e de muita poesia. Manuel Freire cantou os vários dos grandes poetas portugueses (Carlos de Oliveira, Sidónio Muralha, José Gomes Ferreira, Manuel da Fonseca, António Gedeão, Martinho Marques, José Saramago, José Fanha, Pedro Tamen, Manuel Alegre, Fernando Assis Pacheco, Vasco Pereira da Costa, etc…..) um pouco por todo o País, Europa, América e África, ultrapassando já em muito o milhar de espectáculos.

À noite foi a vez de Marianno Deidda interpretar Fernando Pessoa no Salão Nobre da câmara Municipal, às 22h. No ano em que se assinala o 120º aniversário do seu nascimento, têm sido inúmeros os sinais da universalidade do poeta d’A Mensagem. A obra do cantor, compositor e músico italiano Mariano Deidda é mais um sinal: em 2001 este artista mergulhou na obra de Fernando Pessoa tal como traduzida pelo famoso escritor Antonio Tabucchi. O resultado foi um projecto continuado que recebeu o título “Deidda interpreta Pessoa” e que já se estende por três álbuns. O espectáculo que Mariano Deidda estreou em Portugal (Faro, Teatro da Figuras, CCB e Câmara de Matosinhos) é uma viagem pelo maravilhoso universo de Fernando Pessoa.

O último dos três dias de Festa começou com as crianças à conversa com… Álvaro Magalhães, autor de alguns dos mais belos livros de literatura infanto-juvenil como “O Limpa-Palavras e outros poemas” ou “ O Brincador”, que falou com as crianças e os jovens, sobretudo provenientes das escolas do concelho de Matosinhos, sobre o seu percurso, lendo alguns dos seus mais emblemáticos poemas. Este encontro também foi uma oportunidade para pais e filhos se aproximarem, através da literatura, avivando a imaginação e a criatividade. Imediatamente a seguir, o solo Retalhos em Viagem – Caça Palavras, baseado na obra do autor, ganhou forma.

Pela tarde, no espaço infantil da biblioteca, esteve patente a oficina Poetas de papel. A seguir a galega Marilar Aleixandre leu e comentou poesia galega, numa homenagem aos grandes autores galegos. Esta autora tem obra publicada em Portugal.
E como a poesia não é só aquilo que se diz ou escreve, é também aquilo que nos chega pelos sentidos, a Festa da Poesia contou ainda com o concerto Geografias de Júlio Pereira, pelas 17.30h na Galeria Municipal. Este concerto confirmou o virtuosismo do músico que, num passado ainda recente, revolucionou o panorama da música instrumental portuguesa. Júlio Pereira percorreu sonoridades de mundos com muitas latitudes e padrões acústicos, mas, se há contextos locais e regionais de referência, neste espectáculo cruzaram-se na universalidade sem lugar da própria música. Júlio Pereira (Bandolim) foi acompanhado por Miguel Veras (viola) e Sofia Vitória (voz. teclados e programação).

Afirmámos o carácter universal desta festa, depois do Brasil, Itália, Espanha, com a poesia africana, à conversa com Ondjak, que leu e comentou a poesia africana e os seus principais autores.

À noite, “em torno da poesia”, foi o mote para a mesa redonda dos poetas consagrados, na qual se sentaram, Alberto Pimenta, poeta, escritor e ensaísta, que se destaca pelo carácter irreverente e experimental da sua obra; A. M. Pires Cabral – “homem de fundas raízes rurais, tem procurado dar voz, na sua obra, à cultura popular transmontana”; Helga Moreira – estreou-se em 1978 como uma das vozes da jovem poesia portuguesa. É autora de uma poesia minuciosamente resguardada…”; Isabel de Sá – conta com mais de uma dezenas de livros editados; e José Emílio-Nelson – Nasceu em 1948 e estreou-se em 1979 com Polifonia, tendo em 2004 reunido a sua obra poética num volume intitulado A Alegria do Mal.

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