Espinho, Oliveira de Azeméis, S. João da Madeira, Santa Maria da Feira, Sociedade

O “Vouguinha” faz 100 anos

 O “Vouguinha”, como é conhecido o comboio da Linha do Vale do Vouga, faz 100 anos este domingo e em ambiente festivo anunciam-se investimentos na sua modernização.

A festa, que envolve várias entidades como a Refer, a CP e as autarquias atravessadas pelo comboio, não disfarça os problemas daquela linha centenária, o mais grave dos quais é a elevada sinistralidade, sendo responsável por um terço dos acidentes em passagens de nível do país.

Apesar do aumento de passageiros em 2007, o “Vouguinha” é um comboio de outro tempo, numa época em que se discute o TGV. Deixa muito a desejar em condições de segurança e conforto, para poder ser uma alternativa real ao automóvel, nos concelhos densamente povoados que atravessa, como Aveiro, Águeda, Espinho, Santa Maria da Feira, S. João da Madeira e Oliveira de Azeméis.

Com horários desajustados e servida por carruagens vandalizadas, a circulação é gerida “à vista”, ou melhor, pelo telefone: nas estações, na maioria fechadas, o revisor sai da automotora para telefonar para Sernada do Vouga a avisar que o comboio vai seguir.

A Linha do Vale do Vouga tem outras particularidades como uma caricata rotina, nas passagens de nível entre Sernada do Vouga e Oliveira de Azeméis, em que o manobrador chega mais depressa do que o comboio: é que tem de ir à frente fechar as cancelas.

Ainda é assim, por exemplo, na estação de Albergaria-a-Velha que, de portas fechadas, nem os horários tem afixados de forma visível.

Por volta das 15:10, o “Vouginha” pára para desembarcar os passageiros e, com eles, desce o manobrador, que vai a pé até à guarita onde está o mecanismo de baixar as cancelas.

A um sinal seu a composição inicia a marcha, para se quedar um pouco mais à frente da passagem de nível. É a vez de dar à manivela para levantar as cancelas e fazer a caminhada até ao comboio para prosseguir viagem, indiferente ao movimento, ainda lento, da fila de carros que o aguardou.

É a evidência mais caricata, da falta de investimento na modernização da Linha que serve a parte mais populosa do distrito e onde se situam importantes empresas exportadoras que têm a linha à porta, mas que não lhes serve para escoar mercadorias.

Atravessando ainda hoje paisagens únicas, do mar à serra, de Espinho e de Aveiro a Sernada do Vouga, a linha foi inaugurada por D. Manuel II durante a apoteótica viagem que fez ao Norte, pouco depois do regicídio.

Com a República, o comboio chegou a Viseu, em 1914, e foi durante décadas factor determinante da economia serrana, nomeadamente no escoamento do minério que era extraído em Sever do Vouga, no transporte de pessoas e no comércio de produtos de vária índole.

Nos finais do Estado Novo, o “Vouguinha” foi “condenado a circulação suspensa”, por crime de fogo posto: dizia-se que as suas máquinas, então a vapor, é que pegavam fogo à floresta.

O 25 de Abril trouxe o “poder popular” à rua e a linha foi parcialmente aberta, já sem o troço de Sernada a Viseu, valendo-lhe a conquista o epíteto de “comboio do povo”, mas de então para cá o seu encerramento foi várias vezes equacionado numa lógica pouco social de viabilidade.

A transformação em metro de superfície e alguns dos seus trechos, o aproveitamento turístico noutros são ideias recorrentes, perante a ameaça das novas vias rápidas e auto-estradas já construídas, a A29 e a A1, ou anunciadas para a zona, como a ligação rodoviária de Aveiro a Águeda, ou a auto-estrada entre Coimbra e Oliveira de Azeméis, que podem retirar-lhe os passageiros que ainda vai captando.

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